Segunda-feira, Maio 8

Dylan, o Bob
Cheirando a tabaco, diversas marcas. Assim eu me encontrava naquele pub mexicano de dimensões minúsculas. Uma banda de post rock qualquer fazia um curto show, que bancaria mais uma rodada de bebida pra chegados. Garçonetes passeavam, em suas bandejas, porções de nachos genéricos temperados a uísque. Decerto, isso causaria, no mínimo, diarréia. Meu desjejum fora feito horas antes. Ainda bem. Saí do pub, era matinê ainda, caminhava por Londres, logo o acender das luzes desnudaria a cidade, pacata naquele fim de tarde. E aqui começa a história de Godinho, sujeito estranho e amigo que fiz nesse meu exílio. O desenrolar começa ainda naquela tarde. Achei Godinho numa esquina, entregue à bebida, barba por fazer, cabelo microfone e uma camisa do Flamengo surrada, com um furo imenso no Lubrax. Deitado no chão frio, olhando suas mãos. Parei e fiquei a admirar aquela cena, estático, não sei ao certo, alguma coisa me fascinava. Godinho me encarava, e logo emendou: - Tu sabe quem foi Zico, mané? Respondi que talvez. Godinho começara a cantar o hino do clube, com voz embargada. Levantei-o, um tapinha honesto nas costas e levei-o pra comer algo.
Anos depois, caminhávamos, Godinho e eu, pela mesma calçada, rindo de alguma merda qualquer, quando nos deparamos com Bob Dylan, mãos no bolso, cabisbaixo, vindo em nossa direção. Quando chegamos perto, disse-lhe: - Ei Bob! Dylan levanta a cabeça, sorri, cumprimenta-nos. Apresento Godinho. Dylan: - Você é o Defuntor Autor? Godinho diz: - Eu sou quem você quiser. Bob fita-o docemente. Silêncio. E Godinho continua: - Que tal saírmos desse frio e ir forrar o estômago? Dylan reage bem à proposta e emenda: - Conheço um ótimo lugar, aqui perto, que servem os melhores nachos fora da América. Godinho me encarou com uma expressão risonha e irônica, eu só pude dizer, 'Ele é o Dylan, cara.' Fomos os três, com as mãos no bolso.